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As dores que o Brasil não vê: País adoece mais no campo e nas periferias
Por Ana Lucia Azevedo
O Globo – 29/07/2018

Adaptado por HemoBR

"As doenças se perpetuam porque suas condições persistem, como falta de educação e saneamento.

São vidas na negligência que   acabam em mortes invisíveis”

 

- Carolina Batista, diretora da Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas. 

01

Em 2018 pobreza e desigualdade cresceram

O Brasil vê em 2018 pobreza e desigualdade crescerem e, com elas, as doenças que se alimentam da miséria. O país mergulhou num abismo sanitário, manifestado na maior epidemia de febre amarela em um século, na volta do sarampo, na vulnerabilidade à pólio e no aumento da mortalidade infantil. 

02

Aumento de doenças associadas à pobreza

O aumento de casos de malária e hanseníase mostra que o débito com as doenças associadas à pobreza é alto e está à espera do próximo governo. A hanseníase demonstra o peso da miséria e da negligência. Voltou a aumentar enquanto deveria estar erradicada desde 2015, se cumprida a meta da OMS

03

Concentração de renda e doença

O Brasil concentra renda e doença, e as separa com um abismo. Os mais pobres sofrem a maior parte da carga de doença. Oitenta por cento dos casos novos de malária, leishmaniose cutânea e hanseníase estão concentrados em 10% dos municípios mais pobres, desiguais e com maior aglomeração por domicílio.

04

Débito com seus velhos males

O Brasil nos últimos anos passou a registrar o aumento de casos de doenças não contagiosas associadas ao padrão de vida do chamado mundo desenvolvido, como câncer e diabetes, mas nunca acertou o débito com seus velhos males, diz Fernando Tobias Silveira, do Laboratório de Leishmanioses do Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua, no Pará. Chegamos às doenças da Bélgica sem jamais deixar de sofrer os males da Índia.

05

Doenças negligenciadas

Negligenciadas não são as doenças, e sim os doentes, frisa Alberto Novaes Ramos Jr., da Universidade Federal do Ceará. São os moradores das periferias e dos bairros pobres das cidades e das zonas rurais.

Esses males surgem da pobreza e perpetuam a pobreza, são um fator de empobrecimento do país. A mortalidade está fortemente relacionada a indicadores socioeconômicos, demográficos e ambientais.

06

Desinteresse da indústria de medicamentos

Por afetarem os pobres, não interessa à indústria desenvolver remédios e vacinas. As doenças se perpetuam porque suas condições persistem, como falta de educação e saneamento. São vidas na negligência que acabam em mortes invisíveis. Vidas desperdiçadas, porque, para todos esses males, há cura e prevenção —diz Carolina Batista, diretora médica da Iniciativa de Medicamentos para Doenças Negligenciadas.

07

O Brasil é ainda um imenso hospital

Numa das frases mais emblemáticas da história da saúde pública, ao defender o combate de doenças como malária e doença de Chagas, o médico Miguel Pereira declarou que “o Brasil é ainda um imenso hospital”. O discurso proferido em 1916 influenciou as políticas de saúde pública da primeira metade do século XX. 

Um século após Miguel Pereira, seu discurso nunca esteve tão atual.